Eu não poderia deixar passar a data de 9 de Novembro, o 20º aniversário da queda do muro de Berlim, sem partilhar convosco a minha experiência vivida nos países de Leste em 1981, isto é, oito anos antes da grande mudança, ou tal como dizem os alemães, "vor der Wende" :
2 - De Lisboa (Santa Apolónia) a Warszawa (Centralna):
Nesse já distante ano, sendo eu estudante na Faculdade de Letras de Lisboa e frequentador dos cursos livres de Russo e Polaco, ganhei uma "Bolsa de Verão" (algo semelhante ao actual "Erasmus"), para estudar língua e cultura polaca na Universidade de Varsóvia. O curso iria durar de Junho a Outubro de 1981 e logo que fiquei despachado do ano lectivo em Lisboa, rumei a Varsóvia. A minha opção foi o caminho de ferro, pelo que tive umas belas 56 horas de viagem em dois comboios rápidos, mas clássicos, pois nessa época o TGV estava ainda a dar os primeiros passos em França. Fiz então o trajecto Lisboa - Paris no comboio luso-francês "Sud Express" e, depois de cinco horas em Paris, apanhei o comboio franco-polaco "Chopin Express", para fazer o trajecto Paris - Varsóvia.
3 - Assim me lembro da Polónia, de Varsóvia, dos polacos e da sua língua:
A minha estada em Varsóvia foi inesquecível, dividindo o meu tempo entre as aulas de língua e cultura polaca para estrangeiros, ministradas na Faculdade de Letras de Varsóvia e passeios pela cidade. Foi-me destinado o alojamento no velho hotel "Dom Chlopa" (Casa do Camponês), transformado em pousada da juventude, em vez de sofrer o camartelo da demolição, como seria em Lisboa, por exemplo.
A capital polaca, que foi totalmente destruída pelo exército nazi em 1939, é agora uma grande cidade de aspecto monótono, com amplas avenidas e blocos de arranha-céus de cerca de vinte pisos, todos praticamente iguais, separados por amplos espaços verdes. A cidade é atravessada pelo rio Vístula. A rede viária é totalmente ortogonal excepto no centro histórico (reconstruído à imagem e semelhança do antes da guerra), portanto não tem nada de semelhante com a nossa bela capital. As duas artérias mais importantes, a avenida Marszalkowska e a avenida Jeruzolimska, cruzam-se no centro da cidade, na zona de Nowy Swiat (Novo Mundo). O trânsito é extremamente disciplinado, possuíndo a cidade uma fabulosa rede de eléctricos modernos (metros de superfície), complementada por uma boa rede de autocarros. Uma linha de metro convencional (subterrâneo) estava já em construção.
Os polacos são alegres e hospitaleiros, aliás, como qualquer povo eslavo. A língua polaca é a mais complicada das línguas eslavas, bastante mais difícil do que o russo, embora utilizando o nosso alfabeto. O polaco mantém traços intactos do indo-europeu, nomeadamente na complicadíssima flexão verbal e nas três declinações com sete casos cada e muitas irregularidades. A pronúncia, cheia de sons palatais e vogais nasais (é a única língua eslava com sons nasais), assemelha-se ao português. Fora das aulas eu optava por falar russo, embora isso me custasse algum gozo nas lojas: "To jezt Iwan!" (Ali está um Ivan!), era o que alguns diziam, quando ouviam alguém a falar russo, considerada a língua do país opressor. Devido à existência de "false friends" entre ambas as línguas, protagonizei involuntariamente uma cena hilariante numa loja de discos em plena Baixa de Varsóvia. Confesso, que não ganhei para a vergonha! A moeda era (e ainda é) o Zloty. Quis-me parecer, que o poder de compra estava adequado ao baixo preço dos produtos. A economia era planificada e tudo era bastante burocratizado. Havia lojas com prateleiras quase vazias ou com uma pequena variedade de produtos. Um LP de vinil com música polaca custava o equivalente a 19 escudos (cerca de 10 cêntimos); adquiri um projector de cinema (super 8) pelo equivalente a 1300 escudos (cerca de 6,50 euros); eu costumava jantar num restaurante de luxo, frequentado por pessoas do aparelho do estado e por estrangeiros do chamado mundo ocidental. Um bom bife com batatas fritas custava 80 escudos (cerca de 40 cêntimos). Eu costumava deixar outro tanto de gorgeta!
Porém, comecei a pensar nesta questão: Seria melhor um país do ocidente, como Portugal, com uma grande sociedade de consumo e economia livre, mas pouco poder de compra, ou um país de leste, como a Polónia, com uma sociedade de economia planificada, mas onde a população podia usufruír dos bens essenciais, duma óptima segurança social, óptimos transportes, direito à saúde grátis, etc.? Ainda hoje penso na resposta.
O nosso curso terminou em meados de Setembro e tivemos cerca de dez dias para viajar e conhecer o resto do país. Fomos a Gdansk (antiga Dantzig), cuja disputa entre a Polónia e a Alemanha foi a gota de água que iniciou a Segunda Guerra Mundial, fomos a Czestochowa, cidade onde, tal como em Fátima, terá surgido a Virgem e viajámos até Oszwieszcim (antiga Auschwitz), palco principal do extermínio de milhões de judeus.
(Palácio da Cultura)
4 - Berlim com o muro:
No meu regresso, resolvi viajar via Berlim, onde vivem amigos meus, que me esperavam. Apanhei o comboio da noite, Varsóvia - Berlim (Leste), tendo lá chegado cerca das 9 horas da manhã. Orgulho-me de ter conhecido Berlim com o muro.
Atravessada pelo rio Spree, Berlim é uma cidade enorme (cerca do triplo de Lisboa). Dois terços da cidade faziam parte do ocidente, com as grandes áreas urbanas de Zoogarten e Charlottenburg e um terço de Berlim pertencia ao leste, com as grandes zonas urbanas de Pankow e Köpenick. Uma grande avenida, Unter den Linden, rasga a capital alemã no sentido Leste-Oeste. Porém, em 1981, essa avenida, como muitas outras, era interrompida pelo muro exactamente no centro da cidade: Brandenburger Tor. O conhecido monumento, bem como o "Reichstag" (Parlamento) e o Hotel Adlon, onde Hitler manteve conversações com os primeiros-ministros do Reino Unido e da França, respectivamente Chamberlain e Daladier, até vésperas do início da guerra, situavam-se a leste do muro. Grandes cartazes metálicos avisavam nas imediações: " Achtung: Sie verlassen den West-Sektor!" (Atenção: Está a abandonar o sector ocidental!). Porém, para nós estrangeiros, a passagem era feita com poucas dificuldades, através da fronteira urbana de Friederichstrasse, por onde também passavam os comboios suburbanos e os transportes urbanos de superfície. Os passageiros tinham que descer, mostrar a documentação e apanhar outro transporte semelhante do lado de lá, para continuar viagem até ao destino. O metro subterrâneo tinha as estações encerradas no sector oriental e os automóveis só podiam passar através de dois "checkpoints", cujo mais conhecido passou a ser o "Checkpoint Charlie". A fronteira urbana só podia ser atravessada duas vezes por dia. À terceira tínhamos de pagar uma taxa de 3 marcos. Poucos alemães tinham autorização de passagem.
5 - Berlim no ano 2000:
No ano 2000 regressei a Berlim e recordei com nostalgia os tempos de 1981. Encontrei então uma Berlim completamente diferente, uma capital enorme, em transformação, repleta de obras nas zonas por onde passava o muro. Imensas dessas obras estavam a cargo da empresa portuguesa Mota-Engil. O imenso comércio, as inúmeras actividades culturais, uma excelente rede de transportes, uma população jovem e afável, orgulhosa da sua capital, que, em certas zonas possui uma intensa vida nocturna, fazem de Berlim uma capital onde apetece nascer, viver e morrer.
(Porta de Brandenburgo)


Hallo wie ghets?
ResponderEliminarEspero não ter dado um erro. Tu nunca me perdoarias!!
Mas há vinte e muitos anos que não escrevo alemão.
Ia eu comentar o teu post (reflexão), agora que descobri que até é fácil, quando deparei com este tratado! Parabéns pelo texto. Agora já percebo esse teu fascínio, pelos países da Europa do Leste. Antes recusei,(durante o projecto) mas agora que estou mais "crescidita", quem sabe? Até darias um bom guia!
Chuss!!
Já não cheguei a conhecer esse mundo de antes da queda do Muro, mas ainda apanhei um perfume dele quando estive na Alemanha em 1990, 8 meses depois, e tive oportunidade de viajar um pouco pela ex-RDA. Tinham essas coisas boas de que fala o João, mas era um mundo triste de arrepiar, como se tudo o que não tivesse uma função prática não merecesse existir. Compreendo o que diz, e gostava que pudéssemos ter hoje o que muitos desses países já tinham nos anos 80 em termos de serviços públicos e sociais, literacia e apoio à cultura. Só que não à custa da liberdade: isso prezo acima de tudo :-).
ResponderEliminarEstive em Berlim no final de Setembro deste ano, pela primeira vez, e devo admitir que foi uma agradável surpresa! Desde o povo, às ruas da cidade com imensos espaços verdes, à imponênia da Porta de Brandenburgo e o mítico Checkpoint Charlie. Sente-se história naquela cidade, há um ambiente intenso de respeito e de seriedade, que chega, por vezes, ao fundo das nossas almas. Chega até a pesar.
ResponderEliminarJá tinhamos partilhado as nossas opiniões sobre Amsterdão, uma cidade que adorei visitar. E agora, mais uma vez, as nossas opiniões encontram-se. Fico ansiosa por visitar as tuas tão amadas República Checa, Polónia...!